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BARROCO REBOLADO

Volta

Por Eneida Verri Bucco Oliveira
São Paulo - 2010

1. INTRODUÇÃO

     Este trabalho tem por objetivo  fazer uma breve análise  das características, o estilo e um pouco da história  da  Arte Barroca predominante na Europa entre o século XVI ao XVIII.  Foi um novo estilo  de arte que realizou uma dinâmica transformação nas artes plásticas, na literatura, na musica e arquitetura, diferindo dos padrões antes consagrados como absoluto, que durante a Renascença conheceram o equilíbrio sereno das idéias Greco Romanas.

     Em um segundo momento,  será feita uma análise comparativa entre o Barroco tradicional e a obra contemporânea de um ensaio  fotográfico de Silvio Robatto, tendo como objetivo analisar a verossimilhança de ambos os estilos, bem como suas implicações artísticas e emocionais.

     Relevância para a dramaticidade dos trabalhos artísticos, tendo como objetivo principal apresentar como Robatto se utiliza do estilo barroco tradicional, para expor, por intermédio de sua técnica fotográfica, a transposição do estilo barroco para nossa cultura popular brasileira, com uma total  adaptabilidade e realismo, sem perder as características do estilo artístico.
 
     Esse autor, mantendo-se fiel à arte barroca tradicional, porém expondo um trabalho  fotográfico  inovador, e fiel,  mantém uma linha de coerência e dinamismo, sem perder a estética, a dramaticidade, bem como mantendo seu vinculo histórico.
     Ao mesmo tempo apresentando nossas tradições populares retratadas em festejos comemorativos típicos do povo brasileiro.

2. DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO

            2.1 Contexto Histórico Cultural na Europa

     O Barroco inicia-se no final do Século XVI e se prolonga aproximadamente até o século XVIII, passando por vários períodos através de diferentes épocas. Em fins do século XVI revelaram-se na linguagem européia, os primeiros sinais de mudanças da sensibilidade coletiva, anunciando um novo momento estilístico na Historia, em contraposição aos ideais Greco- romanos e o equilíbrio estético do neoclassicismo, padrões antes considerados absolutos.
     O estilo barroco da época, ao mesmo tempo que exaltava o luxo e o poder das classes dominantes, exprimia  o espírito, as tendências e contradições de uma fase histórica.  A Igreja,  templo divino e o palácio do soberano, possuidores do poder absoluto, constituíam o cenário representativo da vida e dos anseios do homem da época.  A arte barroca revelava portanto toda uma condição psicológica naquele momento.
     Com a Contra Reforma, após o Pontificado do Papa Urbano VIII, foi dada orientação no sentido da magnificência, nascendo assim o barroco religioso, como símbolo do triunfo da Igreja Católica.
     Foi criado esse estilo passional, dinâmico e majestoso, que foi utilizado em uma segunda fase da Contra Reforma com o objetivo de reavivar o espírito teocêntrico abalado pelo racionalismo renascentista  e a Reforma em si. As Igrejas passaram a apresentar esculturas e pinturas dramáticas com cenas fortes como a Paixão de Cristo, visões celestiais, vôos de anjos, cores radiantes ou uma estatuária em êxtase e em cruel sofrimento. Esta era uma forma de apelo emocional através do qual a Igreja Católica procurava arrebanhar de volta seus fieis perdidos resultantes da revolução causada pela Reforma.

            2.2 Características estilísticas   do Período Barroco

  •      Durante a Renascença os valores intelectuais norteavam a criação artística na Europa, através da ênfase dos princípios científicos e geométricos a  composição e o equilíbrio das formas, a simplicidade, a clareza, a lógica na articulação dos elementos.
         Em contrapartida o Barroco revelava-se uma arte sensorial, com predomínio da emoção, plena de dualismos  e grandiosidade.

    Exemplificando citamos as seguintes características deste estilo:

    - O uso excessivo de detalhes e ornamentos  e o domínio decurvas e contracurvas
    - A veemência do colorido
    - Contraste com o claro e escuro, luz e sombra
    - Gosto pela composição diagonal que dá a sensação de instabilidade e  movimentos
    - Colunas retorcidas chamada salomônicas
    - Decoração luxuosa com policromia e douração
    - Efeitos ilusionistas com profundidade espacial que amplia as possibilidades de percepção estética

     Com a utilização dramática da luz, no conteúdo temático, observamos o misticismo carregado de sensualidade, gosto pelo exótico ou mórbido, com um realismo áspero, trágico e sangrento.
Na arquitetura especialmente este estilo exalta o luxo e tem toda liberdade de ação.   A liberdade   dos detalhes ornamentais se sobrepõe em ângulos e interseções de paredes,  colunas  com continuidade de formas criando constantemente uma ilusão dinâmica, com suas paredes côncavas e convexas, cúpulas em criativas combinações e seus tetos  com afrescos gloriosamente pintados dando efeitos audaciosos e quase divinos.

     Este impacto era intencional, dando a impressão aos fieis que freqüentavam a Igreja Católica. Através das imagens impactantes, pois a maioria destas pessoas era  iletrada, assimilava  trechos bíblicos e a hagiografia dos santos  enfim os ensinamentos da doutrina católica cristã.

     Este estilo, no entanto, causou uma forte  reação  entre os classicistas que definiam o Barrroco como uma composição sem regras de proporção, como uma aberração e degeneração do estilo renascentista.   Segundo o critico italiano Milizia, que declarou em 1797:
“(...) O Barroco é a ultima palavra em bizarria, e o ridículo levado a extremos. Barromini caiu no delírio (...)”

     Porém, paulatinamente, este estilo passou  a ser visto como uma nova postura diante da vida e do universo  que se revelou na arte.

     Também  segundo o Dicionário de Traveaux (1771) referindo-se ao Barroco menciona:  “(...) Barroco,  na pintura de um quadro ou escultura (...) tudo é representado de acordo com o capricho do artista(...) “

            2.3 Análise do trabalho do artista Silvio Robatto

     Silvio Robatto, baiano de nascimento, filho e neto de fotógrafos, lida com  desde menino. Teve o privilégio de nascer e crescer em uma família de artistas. Silvio, além de fotógrafo, é arquiteto.
O artista inspirou-se  para este trabalho, em celebrações religiosas e profanas de hoje, como por exemplo, a Procissão do Triunfo Eucarístico de Ouro Preto. Sua pesquisa retoma a idéia de recriar o conceito de barroco, investigando na história e na nossa imaginação.
Do sincretismo que vem desse caldeirão de três culturas, a européia, a indígena e a negra, Robatto traça uma ligação que vai da história passada ao presente.  Segundo ele: “as festas brasileiras, procissões e o carnaval, são festas populares, mais barrocas que o próprio período barroco, pois provoca o sentido, a alma, a sedução dos sentidos”.

     Depois de longa pesquisa, nas cidades históricas de Minas e Recôncavo Baiano ele ficou estimulado a realizar um trabalho utilizando a fotografia para gerar uma nova forma de expressão, tendo para tema as nossas festas tradicionais.

            2.3.1. Temática e Técnica

     Robatto, apaixonado pelo estilo barroco, dá a este ensaio fotográfico todas as características desse estilo, apresentando, desta forma, um trabalho impar, fazendo uma estreita analogia com o barroco original e seu trabalho. Pessoalmente, ele realizou cada etapa do processo fotográfico usando a câmera fotográfica, e slides de laboratório, que permitiu originar um produto, conseguindo dar propriedade sem precedente na forma final da imagem. Segundo o artista, o ato de fotografar possui tanta importância quanto o processamento gráfico realizado posteriormente.

     O uso do computador, segundo ele, veio abrir um extraordinário leque dessas possibilidades, permitindo alterações da própria forma, contraste, brilho,  intensidade e nitidez nas texturas, permitindo a adição e alteração de cores sobrepostas, dando um aspecto alegre e original.

     O produto final resulta hibrido, com estrutura formal em preto e branco com toques de cores primarias.
Entretanto, sem perder a estética, que tem partido  da base formadora das imagens, onde a obtenção da destas imagens no ato de fotografar tem tanta importância quanto o processamento gráfico realizado posteriormente.
Segundo ele declara:

“Conclui que estes temas estavam estreitamente
ligados um ao outro e sua origem barroca do século XVII.

   Era tudo a mesma dança”.

     Prova disto é observar como os baianos, mais que outros estados brasileiros,  vêm misturando temas como o sagrado e o profano, desde os primórdios de nossa colonização, em um admirável processo de sincretismo. Os detalhes das imagens, vestuários, ornamentos de nossas igrejas, tudo tem a ver com a  atual maneira com que nosso povo utiliza suas fantasias, mascaras e roupas de preceito nas festas religiosas.

     O titulo que Robatto deu ao seu trabalho foi “O Barroco Rebolado”, titulo um tanto irreverente e malicioso, mas, segundo ele, adequado, pois faz alusões à serenidade histórica e religiosa, com manifestações populares brasileiras.

     Conforme declarou o artista, este tema surgiu na inspiração da arquitetura colonial brasileira, seus detalhes decorativos que encontrou nas festas, procissões da cidade de Salvador e do Recôncavo. Fotografando as festas religiosas, e solenes procissões, ao mesmo tempo se inspirou nos festejos de Orixás das Águas e outras festas profanas, no ciclo natalino e na irreverência do Carnaval, confirmando assim o verdadeiro espírito da Bahia que é o sincretismo de todas as crenças que ocorre no Brasil, mais fortemente na Bahia.

3. Conclusões

     Estilizando as formas do Barroco original, Silvio Robatto nos mostra neste ensaio fotográfico vertentes  de uma memorável  tradição, as festas populares tradicionais brasileiras.  Uniu como a própria cultura baiana o fez durante séculos, o sagrado e o profano, dando ao seu trabalho uma atmosfera atemporal com o silencio que o culto mais precioso clama.
     Robatto interfere com nuances que seu mundo cromático de artista acha por bem, meio azul, meio encarnado, às vezes um fio amarelo,  fazendo estas imagens se destacarem, dando a elas um contorno como os nichos barrocos.
     Em seu jogo de cores sua  câmera nos proporciona um impacto como nos causa um Cristo Crucificado, nos transportando assim às raízes da tradição católica barroca, provocando o impacto, a emoção.  Robatto  nos traz,  desta forma,  o requintado desejo de ampliar o passado e mostrá-lo travestido, às funções do presente, trazendo até nós uma original pesquisa fotográfica, porem mantendo as tradições de nosso passado, tanto artístico como religioso.

     Ao conhecer este trabalho, não pude deixar de comparar a maneira que compõe suas fotos com expressões artísticas tão significativas e fieis ao estilo original em questão. Chamou-me a atenção, sua maneira  despojada e irreverente de transpor um tema clássico e formal como a forma artística do Barroco e a religiosidade brasileira. Vejo neste caso uma estreita situação de expropriação de um estilo, porém mantendo todas as características estilísticas originais, ou seja: “dinâmico, grandioso, plástico, exagerado, trazendo um apelo às mentes através da emoção”.
     Comparando  estas duas abordagens vemos uma estreita legação entre os dois momentos e sua inspirada adaptação, inovando o mesmo conteúdo temático, utilizando efeitos ilusionistas com graça e originalidade. Os mesmo conceitos  que definem o barroco tradicional apropriadamente definem o trabalho de Silvio Robatto.

     Para finalizar este trabalho, gostaria de citar Afonso D´Ávila, fundador desde 1964 da revista “Barroco”.

(...)As festas populares brasileiras são democráticas, igualando ricos, pobres, humildes e poderosos. Precursor do atual samba, o batuque começara a sua ascensão social passando  das senzalas aos salões.  A índole festiva do nosso povo confundia os motivos religiosos e profanos em festas como a do Senhor do Bonfim ou em romarias piedosas, como as feitas nas cidades históricas de Minas Gerais, cuja arte do escultor  O Aleijadinho enriqueceu pouco depois e cujas singularidades artísticas e arquitetônicas Thomas Antero Gonzaga fixaria nas Cartas Chilenas (1788) a primeira a ser impressa em versos (...)

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

ARGAN, Giulio Carlo -  Imagem e Persuasão –Ensaios sobre o Barroco -  Companhia das Letras -  2.004

COELHO, Beatriz – Devoção e Arte – Imaginaria Religiosa em Minas Gerais – Ed UNESP – 2.005- IBSN -85 314 0884-9

REIS, Freitas Sandra. Educação Artística – Introdução à Historia da Arte – Edt UFMG Belo Horizonte – 1993

ROBATTO, Silvio – O Barroco Rebolado – Catálogo Fotográfico da Exposição realizada em 20 de janeiro a 10 de maio de 2.002 -  Edt. Pinacoteca do Estado SP.

TERAPELI, Percival – Arte Sacra Colônia,  Barroco Memória Viva - Editora UNESP -2.005 – IBSN - -85-7060-408-5

   
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