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CONCEITOS SOBRE
ARTE E ESTETICA

Volta

Por Eneida Verri Bucco Oliveira
São Paulo - 2009

1- INTRODUÇÃO

Este trabalho tem por objetivo analisar resumidamente as idéias de Platão inseridas no contexto texto filosófico grego, trazendo uma possível ligação ou referência de sua obra entre outros pensadores que o antecederam ou vieram e épocas posteriores.   
Entre as várias correntes do pensamento filosófico incluem–se uma vinculação e contraposição das idéias. As idéias platônicas culminam todas, os eleáticos, os socráticos, os pré-socráticos, os filósofos jônicos, também em sua preocupação moral. O platonismo deu uma medida clara de vitalidade criadora como dádiva às civilizações que vieram após Platão. Foi um tom a mais de sua aspiração universal, ecumênica e  revigorada  dos anseios do vir a ser da Humanidade.
Platão em sua integridade, em sua derivação múltipla e inesgotável do pensamento, nos remete aos pensamentos nos vários campos da teologia, metafísica, política e ciência. Em tudo isto reside a virtude do platonismo.  Poucos são hoje em dia os  homens que ainda  são solidários aos seus princípios básicos de sua doutrina e de outros grandes pensadores que estão unidos em idéias por um profundo desejo de pureza, de autêntica e esperançada perfeição  integral do homem.
Este trabalho traz resumidamente, estes pensamentos filosóficos, tendo como objetivo os conceitos do amor, o bom e o belo e a arte estética em diferentes linhas de pensamentos.   

2- DESENVOLVIMENTO DO TRABALHO 

2.1.Filosofia Grega – Suas Origens  -  Platão

Segundo Claude Bernard: “ A verdadeira origem da filosofia deve-se ao povo grego. (...) os caracteres de uma revelação divina, teve que pensar em um aporte de mundo grego, um período  esplendoroso e filosófico e experimental, o mais perfeito de quantos a Humanidade tem conhecido através de sua Historia, uma busca onde entra em jogo o poder e magia da razão.”( Jacques Chevalier – Historia do Pensamento pg. 539 – Madrid 1958 – Edt. Aguilar Marias, Julian – Historia da Filosofia – Revista Occidente 4. Ed. Madrid 1848 – pg. 22“)
Este modo de ver as coisas, muito peculiar do homem grego, pode ser considerado como um milagre espiritual, para que possa em realidade, criar o mundo em razão do mundo, incita em um enfrentamento contínuo com a realidade mística e simbólica, a essência da caracterização do mundo grego se revela como uma abertura  ao inteligível,  talvez como uma superação das próprias crenças e deixar-se andar pelos caminhos da razão e do ser.
Ortega y  Gasset se refere ao tema como: “uma germinação – a filosofia grega, como um feito puro, enquanto em que se refere a uma tentativa de compreensão do Cosmos.      
Este mundo do homem grego, se pudermos compreender, consiste em ver e contemplar desta realidade.   Teoria, do Logos e o Ser -   as três noções do pensamento helênico, ordenando o mundo e as leis universais, esta é a noção do Cosmos.” ( Jacques Chevalier – Historia do Pensamento pg. 539 – Madrid 1958 – Edt. Aguilar Marias, Julian – Historia da Filosofia – Revista Occidente 4. Ed. Madrid 1848 – pg. 22“)

Estamos desta feita situados ante o fenômeno grego, talvez com as nossas limitações ocidentalistas, porém, indiscutivelmente um fenômeno que marca o início de nossa tradição filosófica.

Conceito do Belo
Segundo Panofski o conceito de Belo, no pensamento ocidental,  parte do pensamento platônico, porém  houve uma mudança gradativa em seu conceito. Para Platão é possível separar a arte imitativa (mimética) e a Idéia de Arte, voltados para a execução do que seja o verdadeiro, o justo, e belo,  que Homero chamou de Obra do Deuses. Platão tenta aproximar as produções artísticas do conceito de Idéia e conceito distinto sem exclusividade, não considerando o recurso da perspectiva.
Segundo Platão (427ª.C – 347ª.C.) o artista não poderia atingir Idéias, em se tratando da  arte  como produção e sendo que  pensar ficaria restrito aos filósofos. Segundo Panofski no século XV d.C. esta teoria já platônica - aristotélica apresentava uma mudança que foi colocada por Platão, sendo que o termo Ideia  seria uma correlação ou analogia à imagem bela do corpo humano, como inspiração divina.
Porem, a Idéia não está fora do intelecto, mas inspiração que está no espírito do homem, passa então a ser considerada normal a Idéia revelada no trabalho do artista, desta forma, a aproximando-se à Idéia de Arte como imitação (mimesis),  invertendo a idéia de Platão em seu conceito de que a  mímesis do artista o afastava  do conceito de Idéia , sugerido na Antiguidade por Aristóteles.
Polêmicas a parte, Platão continua representando a grande referência do pensamento sobre a Arte, tanto na Idade Media como no período Renascentista, atingindo até parte do período moderno. Sócrates e Aristóteles foram seu precursor e sucessor, assim como Plotino e Agostinho na Idade Media.  A busca da exatidão e padrões de beleza dominaram toda a Antiguidade e sua tradição fundamentada no neo-platonismo. Leonardo, no Renascentismo,  mantém o conceito de Idéia como realidade do espírito.

Já na Idade Media os pensadores medievais retomam o conceito de beleza em que o belo manifestado representa o reflexo da beleza invisível. S. Agostinho relaciona a arte ao artista e ao ato de transferir para a matéria, seja em um quadro ou escultura; o artista está sem esforços transferindo uma inspiração divina para seu trabalho através de um potencial inerente, somente transferindo a impessoalidade do neo-platonismo para o mundo pessoal da crença cristã, ou seja, um Deus pessoal e humano, conceito este  mais aceitável para a Idade Media, que dá  ênfase à uma versão  cristã com características teológicas.
Neste período estabeleceram-se regras ou padrões de expressão artística em um sistema definido de perspectiva, o artista tinha imagens coerentes de coisas visíveis.  Havia certa disparidade entre a Idade Media cristã e a pagã que considerava o homem como  corpo e alma, conceito judeu cristão com tendências planimétricas.

Na Renascença a Arte já estava completamente imbuída da realidade, tendo como fator determinante a mimesis*, com modelos para serem copiados e que esta reprodução fosse o mais fiel possível. O artista tenta superar a Natureza, modificando até se preciso, tendo como objetivo uma obra que chegasse à perfeição. Segundo Bacon: “ Saber enfrentar a Natureza com armas iguais, (...) devemos arrancar os segredos da Natureza tirando-os a força.”  Esta idéia teve inicio já no Renascentismo, quando Miguelangelo deixava idéias inacabadas, pois tinha  a   perfeição  como meta final e pouca produção. 
A arte de Leonardo da Vinci foi considerada o símbolo do Renascimento, seus temas clássicos nos motivos clássicos, a teoria das proporções, uma ocorrência humanística, ou seja, a descoberta e valorização tanto do mundo quanto do homem.   Foi considerado um período que modificou mentalmente os gostos e tendências relacionadas à arte medieval e clássica.  
Surge então a Teoria da Arte, estranha ao pensamento medieval, instruindo o artista  à busca da perfeição, que estava em toda obra de arte, de acordo com as regras de proporção, perspectiva, anatomia, estando assim a Arte estritamente ligada à tradição greco-romana, se estabelecendo no Ocidente após o período Renascentista, determinando assim, novos parâmetros entre o artista e o mundo, entre o sujeito –objeto, reconquistando desta forma padrões de beleza, cujo cerne advém  das idéias neo-platônicas.
Segundo Vasari: “ o termo idéia (...) designa  toda representação artística representada no espírito do artista” . A arte no Renascimento foi a época mais neo-platônica na produção artística, como nos tratados filosóficos e artes visuais, onde o artista transpõe  o ideal  de perfeição  de Natureza, do corpo humano, enfim transpondo a idéia do belo ao  trabalho do artista.” 

Mimesis  : do grego significa imitação – imitatio do  latim, ação ou faculdade de imitar, reprodução ou representação da Natureza, na filosofia aristotélica, o fundamento de toda a arte. Heródoto foi o primeiro a utilizar o conceito e Arsitófanes em Tesmofórias (411) já o aplicava>. Mimesis e poesis são expressões nucleares na filosofia de Platao e na poética de Aristóteles, e sucessivamente no  pensamento teórico posterior  sobre estética  .  Ao passo que, Diegesis seria a ideia de imitação passiva.

2.3 .Sistema Filosófico de Platão – O   Espírito Grego

No Banquete, Platão trata da temática do Amor através da mitologia, seus personagens colocam  uma versão do que seja o Amor, trazendo à  suas  narrativas uma miríade de idéias com fundamentos humanos, da Natureza, e todas as coisas do Universo. No discurso de Sócrates (Banquete)  Platão faz referência à figura feminina contrapondo a idéia masculina, dizendo que o amor ultrapassa as relações corpóreas atingindo uma outra face de Eros (filho de Poros e Penia), que se prende a beleza da alma ao invés do corpo, apresentando desta forma, habilmente, o método da maiêutica, e como um calendoscópio, expõe as várias naturezas do Amor e sua relação com o Belo.

Platão afirmava  que era impossível a arte possibilitar o homem às idéias, e que só o pensamento filosófico leva á idéias, e que a arte é a imagem da Filosofia, usando as palavras como degraus levando o conhecimento através da arte que produz a imagem, conceito ilusório de Natureza uma cópia da idéia,  que  seria então uma  cópia da cópia.
Segundo Platão: “No mundo do conhecimento a idéia do Bem aparece por último e é percebida apenas com esforço, mas, quando percebida torna-se claro que ela é a causa universal de tudo que é bom e belo, o criador da luz e o senhor do sol neste mundo visível.”  
Este estilo característico de Platão nos leva entre uma idéia e outra,  a antítese ou seja realidades opostas que nascem de uma síntese, ou seja uma terceira realidade. Esta forma característica de Platão nos remete a um exercício mental sem precedentes na literatura de todos os tempos.  Expõe as várias formas de amor, defendida por vários convidados, sendo que a exposição de Sócrates, uma das mais belas, coloca em contraposição os ensinamentos elaborados por homens e declara que toda sua sabedoria veio de ensinamentos de uma sacerdotisa chamada Diotima de Mantinea., teoria esta que fecha a dialética de O Banquete com extraordinária sutileza, elevando o conceito do amor à um sentimento mais metafísico diferentemente dos conceitos até então apresentados por outros convidados que definiram o Amor mais no ponto de vista carnal e humano.
A teoria platônica aparece na narrativa  (O Banquete) de várias formas antagônicas, portanto não deveria ser considerada um diálogo mas sim um duelo, onde todos os participantes tentam , cada um de sua maneira, o melhor discurso sobre o Amor, que se contrapõe  entre  teorias sobre o ponto de vista da  Medicina, do  Androgenismo ,  Mitológico de Eros -  o Deus do Amor,  e por fim o Amor Espiritual, encontro de tudo que o coração e o espírito desejava .

2.4 – Conceitos de outros pensadores sobre a Arte e Estética

Goethe: “os diferentes ramos das ciências e artes nunca atingiram seu verdadeiro progresso se na fosse pela observação detalhada e uma imitação da Natureza (...) não fosse o olho da Natureza  solar, como poderíamos  a luz avistar?(...)

Rudolf Steiner :“ A Estética, a ciência  que se ocupa da arte  e suas criações existe há pouco mais de cem anos, apresentada por Alexander Baumgarten em 1750 (...)  o fato da ciência do belo ter surgido tão tarde não é um acaso (...) faltavam  precondições. A necessidade da arte é tão antiga como a própria humanidade, porém o desejo de compreender só surgiu mais tarde.”  

Rudolf Steiner: “Aristóteles, em relação à Estética, excluiu as artes plásticas do âmbito de suas investigações. O que concluiu  parece ele  não ter entendido a função do espírito humano nas criações artísticas.”
O espírito grego devido sua organização se satisfazia com a simples natureza circundante encontrando na própria realidade tudo que procurava . A Natureza vinha ao encontro de tudo que seu coração desejava e seu espírito ansiava  (...)    “Aristóteles não conhecia um princípio superior à imitação da Natureza pois nela encontrava qualquer satisfação estética (...)”

R. Steiner:  “ Hoje há um profundo abismo  entre o homem e a realidade de estabelecer  a harmonia  nas formas, o que antes existia em perfeição original. A natureza está desprovida de intimidade, sem vestígios do que nosso intimo nos anuncia do Divino, consequentemente  há o distanciamento de tudo o que é Natureza, a fuga de qualquer realidade imediata. “
Steiner: “ A ciência cristã medieval não desenvolveu uma cognição da arte, só pode trabalhar com meios da Natureza e a erudição não conseguia entender como é possível criar dentro do mundo sem Deus obras capazes de satisfazer o espírito, porém na época surgiram as mais belas artes cristãs.   A Filosofia, na época Teologia não conseguiu atribuir à Arte um papel decisivo no progresso cultural.”

Platão, segundo Rudolf Steiner:  “ As artes plásticas e dramaturgia era algo nocivo. A tarefa da Arte era deficiente, o valor era dado à música pelo ato de aumentar a coragem na guerra.”
Shelling: “ A obra de arte não é bela por si própria, mas porque reflete a idéia de beleza(...) toda beleza sensorial é apenas um reflexo pálido da beleza infinita que jamais podemos perceber com nossos sentidos.”
Heigel: “ O belo é reluzir sensório da idéia (...) sendo a idéia o essencial da arte. O fim da Arte é o mesmo da Ciência, saber chegar até a Idéia.”  
Friedrich T. Vischer:  “ A beleza é uma manifestação da idéia (...) pois ela expressa a essência do belo que não se separa da Verdade.”
Goethe:  “ As obras elevadas de arte foram produzidas por seres humanos como supremas obras da natureza, de acordo com as leis naturais (....) pois só existe a Lei, a Ordem e Deus.   (....) a Dignidade da Arte, no caso da Música, a maior e mais eminente, pois não há matéria a ser subtraída. Ela é a forma e o teor e eleva e enobrece o que expressa. “
Goethe, na segunda parte de Fausto:” O que importa na arte não é a incorporação de algo supra-sensório, mas sim a transformação da realidade sensória(...) O belo é uma manifestação de leis ocultas da Natureza, e sem sua aparição permaneceria eternamente secretas (...) aquele a quem a Natureza se desvenda seus segredos experimenta  e um anseio irresistível por sua intérprete mais digna: a Arte.”
Quem mais terá compreendido a Arte como Goethe com tanta profundidade?

3- CONCLUSÕES

As várias definições sobre o Belo e o Amor apresentadas neste trabalho, entre vários pensadores de diferentes épocas, poderia ser  resumido os temas principais em questão, como sentimentos de há muito existentes entre os homens, um elixir restaurado de uma essência  natural, parte inerente da natureza humana, reflexo do Cosmos.

Sendo o homem um intermediário do plano divino e o plano da matéria, penso ser o homem o portador das idéias divinas do Bem, Bom e Belo, como legado para a Humanidade.   O amor filosófico de Platão,  ( através da palavra de Sócrates) iniciado por  Diotima, que o ensinou a genealogia do amor,  faz contraponto com as idéias antagônicas dos outros conceitos sobre o tema Amor.   Platão, em sua genialidade, nos dá uma visão diferenciada de certa forma rompendo paradigmas.  Após as várias atribuições  a Eros, vai se distanciando de sua proposta  inicial usando a arte da dialética para apresentar as inúmeras vertentes do amor. Concluindo diz no final:  “O amor é uma dos maiores bens do homem junto com a inteligência , sabedoria e a verdade!”

Em todo processo evolutivo no que concerne às definições filosóficas sobre o Belo, a Estética e o Amor, sentimentos que estão no cerne do ser humano, o macrocosmo refletindo-se no microcosmo do Planeta, deparamos com várias tendências e conceitos, mas  um denominador comum se mantém,  que é o ser humano e sua essência divina, como um pequeno representante da Divindade da Terra, permanecendo em sua essência  a Estética do Cosmos.  Entre as várias definições dos pensadores mencionados, este seria o objeto constante nas definições apresentadas  neste trabalho.
O vínculo estreito entre homem, natureza  e inspiração divina são fatores que a estética na arte não pode ser dissociada, correndo o risco de desviar-se de seu verdadeiro objetivo, que seria no final a preservação do Belo e sua incumbência de  através disto elevar o espírito humano mais perto da Divindade.

   
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