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PARALELOS ENTRE
UM TEXTO LITERÁRIO DE
GUIMARÃES ROSA
E A SÉRIE “OS RETIRANTES”
DE CÂNDIDO PORTINARI

Volta

Por Eneida Verri Bucco Oliveira
São Paulo - 2009

Introdução:

O objetivo deste trabalho é traçar um paralelo entre as obras do escritor Guimarães Rosa e a obra pictórica de Candido Portinari, “Os Retirantes”, sendo que a meu ver estas duas obras possuem características comuns bastante próximas e relevantes para este trabalho. O escritor e artista em questão apresentam muitas afinidades em suas obras e pontuam uma questão preponderante que é a vida sofrida dos habitantes do sertão do Brasil. Ambos tratam a questão com muita sensibilidade e realismo, fazendo de suas obras uma bandeira nacionalista, quando tanto pelas letras como pela pintura, apresentam a dura realidade do Brasil interiorano. Logicamente suas obras são vastas, porém o tema comum de ambos que me interessou foi o tema do Sertão, me parecendo ter bastante apropriado para este trabalho.

Guimarães Rosa – Características Literárias

Guimarães Rosa, escritor, medico e diplomata, nascido em Cordisburgo MG em 27 de junho de 1908, morre aos 59 anos de idade. Foi uma figura de destaque no Modernismo brasileiro, criou uma individualidade quanto ao modo de escrever e criar palavras, transformando e renovando radicalmente o uso da língua portuguesa. Em suas obras estão presentes os termos coloquiais típicos do sertão, aliados ao emprego das palavras que já estão praticamente em desuso. Cria uma série de neologismos nascidos a parte das formas típicas da língua portuguesa, denotando o uso constante de onomatopéias e alterações resultando sugestivas palavras como “resfrio”, “retrovão”, “desfalar”, entre outras, ou frases como: “os passarinhos que bem –me-viram”, expressões que deram originalidade e um certo humor ao seu trabalho. A linguagem toda caracterizada de Guimarães Rosas reconstrói o cenário mítico do sertão tão marginalizado, onde a economia agrária, já em declínio, e a rusticidade ainda predominam. Os costumes sertanejos as paisagens, é enfocado sob todos seus aspectos, cheio de mistérios e revelações em torno da vida daquele povo. A imagem do sertão, como o escritor prega em “Grande Sertão e Veredas”, o sertanejo não é somente um ser humano rústico que povoa esta vasta região do Brasil. Seu conceito é ampliado: ele é o próprio ser humano que convive com problemas de ordem universal e eterno. O eterno conflito entre o ser humano e o destino que o espera, a luta sem tréguas entre o bem e o mal, a morte que destroe adultos e crianças devido à rusticidade crua e desprovida de condições de vida mínimas, que expõe aquele povo, tendo o assombro da morte como vizinha constante. Descreve um clima mágico e obscuro, contratando com a rusticidade da realidade. Seus contos de certa feita seguem a mesmo linha desenvolvida em seu único romance, Sertão e Veredas. Guimarães Rosa como medico trabalhou em contato com o povo e os cenários da região do sertão e reflete em sua vasta obra, inclusive influenciando em seu interesse por questões político-sociais constatados e em suas principais obras como: Sertão e Veredas (1956) Sagarana (1946), Corpo de Baile e Tutameia (67) e seus vários contos. O titulo Sagarana remete-nos a um dos processos de invenção de palavras características do escritor. O hibridismo “saga” significa conto heróico, lenda e “rana” que significa em língua indígena “espécie de”. As historias desembocam sempre em uma alegoria e o desenrolar de fatos prendendo-se a um sentido ou moral à maneira das fábulas, cada conto coordena a narrativa tomadas pela tradição do sertão. Em Sarapalha descreve um epidemia de malaria em um povoado do Rio Para, refletindo a precariedade e os perigos que os habitantes estão expostos. Também em O Duelo, Rosa descreve uns retirantes que retornam de S.Paulo, onde tinham ido a busca de uma vida melhor, porém o personagem morre em um duelo ao chegar de volta ao sertão. É o eterno conflito entre o ser humano e o destino que o espera. A luta sem tréguas entre o bem e o mal, entre Deus e o diabo, entre a morte que os destroe e os anos que reconstrói. Um clima mágico e obscuro, constante com a rusticidade e violência da realidade do sertão, revelações em torno da vida, que pelas letras de Rosa se tornam em uma relato de realidade e informação, porém acrescentada de fascínio e magia.

Candido Portinari – Suas características como pintor

Nascido em 30 de dezembro de 1903 em Brodósqui, SP e falecido em 6/2/62, sua obra ultrapassa o âmbito estético artístico pela contextualização dos problemas sociais brasileiros. Portinari como pintor e como itinerário de acesso ao Brasil de sua época não se limita ao legado pictórico, ele representa também um importante pólo de captação das principais preocupações estéticas, artístico-cultural, sociais e políticas de sua geração. Conviveu com Juscelino Kubitchek e Neimeyer. Portinari produziu cerca de 5 mil obras, entre pinturas murais, telas desenhos e gravuras. Dono de um espírito empreendedor foi um inovador, passando por diversas transformações da prática pictórica durante sua trajetória artística. Portinari foi um realista ou impressionista? Ao analisar sua obra cada época apresenta um Portinari diferente, porém sua fase mais marcante é quando apresenta um momento histórico-social de um Brasil cuja problemática de um povo, único em suas formas fortes e marcantes, permanecem como característica marcante de sua obra. Revelou-se um artista desafiado pela superação do próprio trabalho, permeado por técnicas e estética que se transformam em idéias principais de retratar a realidade social do país, característica que se manteve constante no decorrer da realização de seu trabalho. Sua obra mais característica deste contexto social cultural está representada na série de oito quadros intitulada “Os Retirantes”; pintada entre 1944 a 1959. Embora sendo paulista, retrata como ninguém o sofrimento e a realidade do povo do sertão. Portinari legou ao nosso imaginário uma ampla síntese critica de todos os aspectos da vida brasileira. Sua obra foi celebrada pelos mais notáveis nomes de sua geração, no Brasil e no exterior. Possui temas variados sobre vários temas como, o religioso, histórico o trabalho no campo, tipos e festas populares, etc em um emocionante e real retrato do Brasil onde vibram o drama e a poesia de nosso povo. Em 1944 durante aos horrores da II Guerra Mundial, Portinari se impressiona com o mural Guernica de Picasso, e com os relatos dramáticos que chegam ao mundo todo. A morte está presente por todos os lados. No Brasil o sofrimento é provocado pela Natureza e o nordeste é atingido por grandes secas que trazem conseqüências desastrosas para o povo. Muitos escritores como Jorge Amado, Graciliano Ramos e o escritor em questão, Guimarães Rosa, falam das realidades de nosso pais. Portinari não fica alheio e exprime em sua pintura o drama que se observa em sua série de telas “Os Retirantes”. Convidado pela ONU no pós- guerra para pintar o Mural Guerra e Paz, durante este trabalho se intoxica com tintas que o leva adoecer e seu falecimento ocorre em 1961.
Segundo um critico,

” não foi a pintura que o matou, , apenas ele deu a vida à pintura”.

Segundo Manuel Bandeira:

“Portinari não só é o maior pintor brasileiro de todos os tempos, é um exemplo único de todas as nossas artes, da força do povo dominada pela disciplina do artista completo pelo instinto infalível do belo. Diante destes choros que falam ao mais profundo de minha alma de brasileiro, tudo que posso fazer é admirar”.

Conclusão

Traçando um paralelo entre o pintor Cândido Portinari e o escritor Guimarães Rosa concluímos que ambos têm em muito comum em suas atividades artística e literária. Ambos são contemporâneos de uma época em que as atividades sócio políticas eram latentes e ambos foram partícipes destes acontecimentos, tendo como preocupação maior a situação sócio-econômica do Brasil, a qual inserem magistralmente no contexto de suas obras. Em Os Retirantes, Portinari retrata com fidelidade as formas esquálidas e sofridas do povo nordestino, enquanto que Guimarães Rosa relata com detalhes, como nenhum outro escritor, os usos e costumes, os dramas do povo de sertão brasileiro, vitimas da situação climáticas, geográficas e o descaso das autoridades , levando a população à miséria e sofrimento. Ambos modernistas contemporâneos, possuem um enfoque bastante semelhante e fizeram do tema da realidade social brasileira, o centro de seu trabalho e durante grande parte de suas vidas.

Criança Morta - Óleo sobre tela.

Os Retirantes - Óleo sobre tela.

 

BIBLIOGRAFIA

GUIMARAES ROSA, Wilma,- Relembrando João Guimarães Rosa, meu pai. Ed Nova Fronteira, Rio, 1983

CALLADO, Antonio – Crônica – Folha de S.Paulo – Caderno Ilustrado 1992

LORENZ, Gunter – Dialogo com Guimarães Rosa – Coleção Fortuna – Ed. Civilização Brasileira – 1983

Enciclopédia Arte no Brasil – Volume II - Editora Abril Cultural copyright 1979 Portinari - Pg 715

htpp://www.portinari.org.br/ppsite/ppacervo/pesquisa

htpp://www.projetoportinari.org.br

   
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